sexta-feira, 26 de maio de 2017

Porque abandonei a igreja


Iniciando com um breve histórico, nasci e fui criado no meio evangélico durante as décadas de 80 e 90. Ser evangélico nesse período era ser pária na sociedade; dificilmente um evangélico era visto com respeito e havia uma luta entre os crentes e a grande maioria da sociedade predominantemente católica. Éramos vistos como pessoas estúpidas e sem condições de conseguir bons empregos e boa colocação social. Mas, para mim, esse foi um período feliz, vivíamos na simplicidade de nossas crenças, a convivência (posso estar enganado) era mais simples. Mas as coisas mudaram e para muito, muito pior.
                Quem me conhece sabe que sou crítico ferrenho do sistema pentecostal. Já fiz um artigo (que você pode ler clicando aqui) falando um pouco sobre como o sistema religioso predominante foi instaurado no Brasil, mas neste momento quero falar de algo mais pessoal. Claro que minhas motivações não fogem as críticas já tecidas, mas neste momento refiro-me apenas as amargas e venenosas experiências a que fui submetido ao longo dos 28 miseráveis anos que perdi da minha vida sendo frequentador da Assembleia de Deus. Não citarei nomes por questões éticas, mas um dos personagens é mundialmente infame (não, isto não é uma hipérbole) logo, quem é do meio saberá a quem me refiro.
                Em primeiro lugar o que me fez abandonar a igreja foi a solidão. Em uma comunidade entendo que existem pessoas das mais variadas filosofias de vida, mesmo quando compartilham uma crença, e acredito que o respeito as diferenças é o que nos faz amadurecer. Na Assembleia de Deus que frequentei situada a Rua Fernando Guilhon nº 5090 em Marituba-PA, cep 67200-000, o ambiente não era nada propício a uma criança superprotegida com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade com tendências impulsivas. Claro que este foi um diagnóstico tardio, mas é algo que me acompanha por toda a vida. Sempre fui muito tímido nunca soube muito me relacionar com outras pessoas, e acredite, ser uma criança assim num ambiente hostil aos seus ímpares é destruidor. Não lembro de quase ninguém com quem convivi na minha infância nesse período, poucas vezes fui de manter contatos duradouros (entenda-se duradouro por 3 anos e fim) e, não sei até onde vai a minha culpa e reconheço que tenho, isso cria uma barreira de puro preconceito já que as pessoas não entendem o que se passa com você e nem fazem esforço para tal, mas que seja, cada um com seus problemas, sendo que esta máxima é inadmissível no cristianismo, que prega empatia; você pode me questionar se eu levei a de alguém, sim levei, da forma mais errada possível, mas pelo menos tentei. Já fui chamado de tudo dentro da igreja (menos de santo, é claro). Entenda-se que o conceito de convivência não abrange apenas você falar com as pessoas, mas conhece-las de fato, exercer empatia. Claro que a solidão é uma condição humana e não há nada a ser feito a respeito, e presença física pouco tem a ver com a cura deste mal. Logo, apesar de cercado, sempre me senti só. Conclusão, se for para ser sozinho que seja na minha casa, longe das vistas de gente que vai analisar minha solidão pelo viés da maldade pura e simples.
                Segundo motivo que me levou a abandonar a igreja foi o medo que evoluiu para o nojo. Não sei até onde você conhece a cultura evangélica pentecostal, mas ela basicamente foi fundada na concepção de liderança despotismo puro e simples. Pastores pentecostais são pessoas mesquinhas e infelizes (claro, há exceções) que adoram exercer domínio sobre outras pessoas. O movimento pentecostal foi fundado em Belém do Pará por Gunnar Vingren e Daniel Berg, cuja história o pastor presidente da Prostituta Maior conta pela metade de que eles receberam uma revelação divina para iniciar os trabalhos por estas bandas; ele só esqueceu de contar que a igreja que Gunnar e Daniel frequentavam nos Estados Unidos entrou numa briga de egos tão grande que eles acabaram expulsos de lá. Esse é o mau desta denominação. Por isso se vê tantas Assembleias de Deus espalhadas por aí e uma não tem nada a ver com a outra; mas se a grande Assembleia de Deus da 14 de Março esquina com José Malcher bairro de Nazaré, Belém-PA é a prostituta, logo as demais são as filhas da puta. Enfim. Este início nesta região foi influenciada pelo coronelismo e o grande mal destes pastores é achar que têm domínio sobre a vida das pessoas. O medo é a ferramenta de controle que eles usam. Eu passei anos tendo medo do primeiro homem que me pastoreou, com aquele olhar sério, tinha mais medo dele que de Deus, procurava agradar mais a ele que a Deus. Aí você pode me julgar dizendo que a culpa é minha porque fui religioso e não cristão, blábláblá, mimimi... Esse também é um lado ruim dos pentecostais, falta noção de cultura e construção social. Lembro que quando mais novo eu sentia dor de barriga toda vez que ele se aproximava de mim. Ora, Deus é amor, Jesus disse que seriamos reconhecidos como seguidores dele se nos amássemos uns aos outros e a bíblia diz ainda que no amor não há medo. Nesta matemática filosófica não há amor, logo meu antigo pastor não era muito cristão não. Depois que perdi o medo me mudei para uma igreja pequena na Humaitá. O pastor era um paspalho, a mulher dele encrenqueira e os parentes deles dominavam a igreja, por ele ser meio frouxo, os parentes faziam o que queriam, mas quem ouvia eram as vítimas dos caprichos deles. Daí veio o meu nojo. Vivia debaixo de cobrança, até que um belo dia a mulher do pastor pediu para conversar comigo, quando fui falar com ela fiquei falando só, porque ela se achava o suprassumo da humanidade e eu teria que esperar pela boa vontade dela, sendo que dali não saía nada de bom. No domingo seguinte cheguei ao culto percebi que ninguém falou comigo, muito menos o untado com óleo de peroba do pastor e a mulher dele. Deu 15 minutos do início do culto levantei e fui embora e desde então nunca mais pisei lá. Algum tempo depois o pastor me ligou para saber o que tinha acontecido e me chamar de volta. Como se eu tivesse merda na cabeça de voltar para aquela pocilga. Daí veio meu mais profundo e sincero nojo por esse meio.

                O terceiro motivo são diferenças ideológicas. Eu não sou humanista, não acredito numa religião centrada no dinheiro e não acredito que existam pessoas especiais dotadas de algo a mais que as façam superiores a seja lá quem for. O movimento pentecostal morreu e apareceu uma prostituta velha, aidética e drogada no lugar chamada Teologia da Prosperidade; esse lixo imundo foi criado nos anos 30 por um cidadão chamado Essek William Keynion que dizia que tudo que você verbalizasse se tornaria real, teoria difundida por um hipnotizador chamado Phienas Quimus (acho que a grafia é esta). Detalhe é que Essek morreu na miséria e doente, contrariando tudo que ele pregava. Neopentecostalismo trabalha sobre três pilares: medo, culpa e ganância. O propósito é o mesmo: tirar dinheiro do povo e colocar controle nas mãos dos tiranos que as lideram. O medo vem em forma de ameaças, onde você tem que ofertar para a obra, para Deus não mandar o devorador sobre suas finanças e toda essa baboseira que a gente cansa de ver. A culpa vem quando o pastor diz que as coisas estão dando errado na sua vida porque você está em pecado e precisa então, fazer um $acrifício no altar para ser livre do pecado. A ganância promete mundos e fundos se você $emear na fissura anal do pastor tudo que você puder. Eu acredito na mesma medida de amor, graça, misericórdia, justiça, ira e atuação de Deus. Deus não precisa do meu dinheiro pra nada. Não acredito na necessidade de templos, nem festas, nem dias especiais, nem em pessoas especiais e nada disso. A igreja se tornou um palco de guerra de dominação. Silas Malafaia que o diga. Aparece querendo ser o arauto de bons costumes, adora denunciar comunidade LGBT, políticos corruptos e tudo o mais, ao passo que manda os fiéis se calarem diante das injustiças praticadas dentro das igrejas. Esqueceu de ler 1º Cor 5, onde Paulo exorta a se julgar os de dentro da igreja e deixar os de fora que Deus lida com eles. Infelizmente Silas Malafaia influencia toda uma cultura, vários pastores Brasil afora veem nele um modelo a ser seguido. Se você não dançar conforme a música tocada nas igrejas você ficará esquecido num quanto qualquer. Igreja é comunidade, espera-se o senso de comunhão que dificilmente existirá. Questionar é rebeldia: ou você obedece ao pastor ou estará sob maldição. Você pode falar mal de Deus e o mundo, mas se falar de pastor você vai morrer. É o tipo de coisa que não encaixa na minha cabeça. Eu me sinto deslocado dentro de uma igreja, eu não consigo conviver mais com essas pessoas. Não tenho raiva dos seguidores, para mim eles são 50% vítimas de um sistema falido e 50% culpados por pura preguiça intelectual de questionar a procedência e veracidade do que lhes é entregue. Hoje Deus não passa de um bom negócio para a maioria dos líderes de igrejas neopentecostais. Nietzsche não errou quando afirmou Got ist tot, as pessoas é que não entendem os próprios feitos e cada um cava sua cova achando que vão encontrar ouro no fim. Como eu existem muitos. Sou revoltado? Sim, de certa forma sou, aceito minha alcunha. Talvez essa breve catarse não faça sentido para você afinal, só sabe de uma dor quem sente. Tanto faz. Eu me senti melhor como ser humano depois que abandonei a igreja, vi que existem outros mundos além daquele, aprendi que opiniões divergentes não envenenam nossa alma, a cegueira de achar que só minha verdade é válida sim, e este é um mal que o sistema religioso impõe. Deveras, a verdade me libertou, mas ela é bem diferente do que eu imaginava. Esse abandono foi 100% positivo? Não, não foi. Mas cabe a mim lidar com o que houve de ruim e a mais ninguém afinal, a lição é minha unicamente. Os caminhos da experiência são traçados na solidão. Aceitar é libertar-se da dor. Negar é sofrer.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tolo Tabu

Foto: Jan H. Andersen (http://www.jhandersen.com)

“Cuidado com a tristeza. Ela é um vício.” –Gustave Flaubert

Eis um sentimento mal compreendido. As pessoas temem a tristeza como o diabo teme a cruz, como se fosse inevitável em nossas vidas. A tristeza masculina então, essa é execrada da sociedade. Hoje nem tanto, mas cresci com o conceito estúpido de que homem não chora (sendo que o choro é uma reação direta à tristeza). E ouvia isso de muitas mulheres. Depois reclamavam da insensibilidade masculina. Enfim. Quero refletir aqui sobre a tristeza como um todo. Apesar de hoje as pessoas temerem demonstrar tristeza, ela é o mal do século. Angústia, desespero, incertezas, temores, síndrome do pânico, estresse, depressão e fobias são sentimentos negativos muito ruins, eu sei porque os sinto constantemente. Mas acredite, eles têm sua razão de ser.
Há poucos meses li um livro chamado O Lado Bom dos Seus Problemas, cujo foco era explorara sentimentos e problemas psicológicos através da história humana. Segundo o autor “A tristeza nos faz cuidar melhor dos outros. E, com todo mundo cuidando melhor de cada um, a chance da gente sobreviver é maior. Foi o que aconteceu ao longo da existência humana. Por isso a tristeza fez parte da nossa evolução”; este trecho do livro segue-se ao relato de uma perda. O autor tratava de um momento de luto, que, acredito eu, é o pior sentimento de tristeza que enfrentamos. Acredito que todos nós já estivemos em contato com a morte, seja de um amigo, de um parente, de alguém que apenas conhecíamos de vista. A morte nos faz pensar, refletir. A tristeza causada por ela nos faz buscar motivações para seguir em frente. Quando se perde alguém tão próximo perde-se o chão e as motivações junto com a pessoa amada. Aí temos apenas duas escolhas: tirar força da fraqueza ou sucumbir. Muitas vezes a opção é clara e não há o que contestar. Seguimos em frente tristes, magoados, feridos, nos arrastando, sufocando enquanto o tempo passa e a dor aumenta e o mundo ao redor parece não se importar. E quer saber? O mundo não se importa mesmo!
Falar sobre essas coisas é uma catarse pra mim. Odeio quando alguém me olha e diz que tenho motivos pra ser feliz porque tenho um carro e uma casa. Até onde sei dinheiro não compra felicidade. Dinheiro é algo tão fugidio que se não soubermos ser senhores dele não teremos futuro nesta vida. Tenho pena de quem é dominado pelo dinheiro. Meu último post, A Velha Senhora (ou a faca de doisgumes), falei sobre a morte e sua justa medida, pois ela não poupa nem ricos nem pobres, nem velhos nem moços, nem brancos nem negros, nem gente tapada nem inteligente. A tristeza, que é sua companheira, também não. Por mais que fujamos, hoje sentimentos como esse são lugar comum na humanidade. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, a depressão, que é caracterizada por uma tristeza profunda, hoje atinge cerca de 7% da população mundial – cerca de 400 milhões de pessoas, sendo considerada a doença mais incapacitante dos dias atuais (fonte: Folhade São Paulo). E esta é só uma das doenças que tem a tristeza como principal caraterística. Acrescente-se a isso distimias, transtorno bipolar, síndrome do pânico, fobias.
Se a tristeza faz parte da nossa rotina por que negamos tanto esse sentimento? Será que é por que não sabemos o que fazer com ele? Ainda sentimos vergonha de demonstrar nosso lado sombrio (todos temos um) por medo de parecer frágeis. Não sejamos tolos, todos somos frágeis. Alguns apenas têm uma armadura ao redor de si. Tenho um amigo, a quem muito estimo, que é o tipo de pessoa que ninguém vê triste. Ri de tudo e de todos, faz graça de tudo nessa vida. Mas algumas vezes o irmão dele me confessou que ele virava noites chorando. Talvez ninguém saiba das lágrimas dele além de Deus e do irmão. Talvez ele compartilhe com um amigo próximo. Talvez ele esteja certo em esconder do mundo seu fardo e suas incertezas, quem sabe? Fato é que muitas pessoas vivem em situação análoga a dele, não as vemos reclamar de nada, o sorriso é uma constante, mas suas noites são negras e amargas e quando essas pessoas olham para a vida não encontram motivação. Algumas não suportam o fardo e adoecem a ponto de botarem uma bala na cabeça.
Eu sou a favor do choro, do expurgo, da catarse. Aprendi o que é catarse nas minhas aulas de psicologia e nas conversas com minha professora (a quem devo muito), significa o “vomitar da alma”, botar pra fora aquilo que faz tanto mal. Silenciar é o pior veneno. E quando enfrentamos situações provocadas por outros, e passamos muito tempo prendendo esses sentimentos eles acabam se tornando em ódio. A sociedade tem criado seus monstros, vendendo uma imagem de propaganda de Coca-Cola, mas a vida não é nada disso. Nosso maior erro é querer demonstrar o que muitas vezes não temos dentro de nós. Infelizmente aprendemos a viver para esfregar falsidades na cara dos outros. Nossas redes sociais são pura máscara. Estou lendo um livro chamado Sociologia da Fotografia e da Imagem, e o autor elenca o fato de a fotografia não ser sincera, mas apenas passa a imagem daquilo que é ideal (ideal pra quem, afinal?). E fizemos dela uma ferramenta tão mentirosa para corroborar com nosso estilo de vida. Tornamo-nos indiferentes à tristeza alheia, e acabamos colhendo para nós mesmo tal indiferença.
Lembro-me quando perdi meu pai. Foi um momento tenso. Uma semana depois as pessoas me tratavam como se nada tivesse acontecido, apesar de toda a tristeza. Não as culpo, lidar com o fardo dos outros é difícil. Mas senti a indiferença. A única coisa que ouvia é “agora tu és o homem da casa, cuida da tua mãe e da tua irmã” como se essa verdade não estivesse nua e crua diante de mim. Era insuportável. Eu cheguei a tratar mal uma pessoa que me disse isso e, confesso que não me arrependo nem um pouco. Eu só sinto um incomodo na forma como a tristeza é tratada nos dias de hoje. Não há um ser humano sequer, seja de que gênero, cor, credo, nacionalidade que seja, que não sinta tristeza. Acredito que já está mais que na hora de procurarmos entender como lidar com ela. Está mais que na hora de entendermos as pessoas que lidam com a tristeza diariamente. Nunca teremos a solução para os sentimentos negativos, e francamente, acho isso alentador, afinal eles são o equilíbrio na balança de toda a loucura que vivemos. São nossas âncoras, não nos deixam ser levados pelas fantasias de louca felicidade que acometem alguns como um vírus. Tristeza pode ser ruim, mas felicidade em excesso é bem pior. Como canta o The Agonist, Deus abençoe o sofrimento.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A Velha Senhora (ou a faca de dois gumes)


A morte. Personagem tão temida por uns e tão celebrada por outros (não necessariamente os que a encontram). Eu penso todos os dias na morte. Sou alvo de julgamentos ridículos de pessoas que se esquecem de que estão caminhando para ela. Vivem como se tudo durasse pra sempre, mas como dizia o poeta amargurado e negativamente lúcido, A Vida é um momento. Um doce momento para alguns e uma amargo desenrolar para tantos outros. Penso nela como uma faca de dois gumes, pois, para uns ela pode ser o merecido descanso, como filosofou Homer Simpson nesta última temporada da série, onde ele criara um mundo perfeito e eterno e se desiludiu quando percebeu que não receberia o merecido descanso da morte. Para outros pode vir de forma desesperadora, pois não tiveram tempo de realizar tudo que propuseram em seus corações, menos ainda se arrepender e corrigir seus erros levando-os a um terror desconhecido do que poderão encontrar do outro lado. A morte é um sono. O despertar é incerto.
Tenho medo de encontrar a morte. Não temo a morte em si, mas duvido que a forma que ela se apresente seja bela. Para os epicuristas o medo da morte era uma tolice, por assim dizer, o que não deixa de ser lógico, afinal, todos nós estamos fadados a encontrá-la mais cedo ou mais tarde. Como dizia minha avó, "quem de novo não morre, de velho não escapa". As pessoas me criticam por essa visão, tratando-a de negativista (o que eu acho pura burrice). Um cristão pensar assim chega a ser ridículo no mínimo, apesar de aceitável, afinal, os cristãos de hoje nem conhecem a Palavra que eles tanto afirmam crer. Enfim, gosto das palavras de Salomão:

Melhor é a boa fama do que o melhor unguento, e o dia da morte do que o dia do nascimento de alguém. Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. [...] O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria. (Eclesiastes 7.1-2; 4)

É claro que não da para esperar que um cristão envenenado pelo pós-modernismo dos dias atuais pense assim; eu penso. Não que eu seja um bom cristão. Niilismo.
Há tempos não ouço uma história de alguém que tenha morrido tranquilamente. Parece que esta benção foi aniquilada de nossos dias. Meu pai me contava de como meu bisavô morreu: estava deitado, pediu para uma de suas filhas lhe fazer um copo de leite e depois enrolá-lo no lençol. Fim. Dormiu e não acordou mais. Apenas se desligou deste mundo. Meu pai mesmo partiu desta vida em agonia, quase em um paroxismo, algo difícil de lidar, tanto para quem vai quanto para quem fica. Nossos dias em ritmo acelerado nos tomam um tempo precioso em que poderíamos refletir melhor sobre propósitos e necessidades e a hora final sempre nos toma de surpresa. Nunca estamos preparados.
Pensando bem, eu temo sim a morte. Uma tolice, mas uma tolice unânime. Será que chegarei ao fim do dia? Será que verei muitos dos meus amigos e parentes partirem dessa vida deixando um vazio para trás? Talvez seja melhor não pensar e seguir em frente como se nada de ruim fosse acontecer. Mas ser pego de surpresa e não saber como agir pode ser bem pior. Morrer é um fato da vida, nosso maior paradoxo, pois começamos a morrer no momento em que começamos a viver. A Morte é o complemento da Vida. Simples assim. Lembro-me do primeiro velório que fui, quando criança. Claro que não me lembro dos detalhes, mas lembro de ter ficado encantado com o caixão. Não entendia por que alguém dormia numa caixa de madeira enquanto todo mundo chorava. Diziam-me que ele dormia, o que não deixa de ser verdade.
Conforme fui crescendo fui vendo outras pessoas próximas partirem. A morte é inexorável, e justa. Ela chega para todos, ricos ou pobres, negros ou brancos, jovens, velhos e crianças. E essa justiça com que ela age é fantástica. Como disse antes, aos bons é o descanso necessário, aos maus é o castigo merecido. A celebração da morte em algumas culturas chega a causar aversão. Em uma aula de Filosofia da Educação, meu professor passou um vídeo sobre costumes na Papua Nova-Guiné aonde os parentes do falecido não o enterram logo e, conforme o corpo entra em decomposição, os parentes do morto se passam os fluidos que saem do cadáver para assim manter viva a  memória do tal. Ainda há um fato pior, mas não narrarei aqui.
Durante a era vitoriana na Europa, existia um estilo de arte chamada Memento Mori (do latim, "lembra-te que és mortal"), onde era costume tirar fotos dos falecidos junto com os vivos da família. Famílias faziam coleções destas fotos no que se chamava "Livro dos Mortos". Acho interessante. Eu particularmente gosto do bizarro. Viver apenas preso a paradigmas que não aceitam contestação é uma forma de alienação. Não sou chegado a hedonismo, e sim, a realismo. Se fosse pra fugir da realidade seguiria o conselho de Freud e usaria cocaína. Ou coisa mais pesada. Este é um dos motivos por buscar não pensar apenas naquilo que traz satisfação, mas, acredito que pensar obviedades esquecidas é um exercício de racionalidade forçada interessante.
           O medo da morte é o pai de todos os medos. Na verdade, acredito que seja isso que mova a humanidade. Se fôssemos eternos ainda neste plano talvez nada de importante fosse realizado. Fato é que o medo da morte, ou a morte em si, foi a grande propulsora das ações humanas, boas ou más. A morte permeia até mesmo a mais sensata das religiões. Seguimos filosofias em busca de encontrar uma saída para o incerto. Bem verdade que alguns usam a desculpa da morte para mascarar suas loucuras, mas enfim, da loucura ninguém escapa. Como diz o Dr. Dan Blazer, Ph.D., ninguém pode ser considerado normal já que todos possuem algum desnível psicológico, em maior ou menor grau. Só precisamos mesmo enlouquecer pelos motivos certos, afinal, o fim de tudo e inevitável.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O que penso da religiosidade brasileira

Este é um artigo que escrevi para a faculdade. Tem uma linguagem mais técnica, mas é fácil de entender. Não me crucifiquem, apenas ponderem o que ler. Ao texto.

Despotismo no movimento pentecostal

        Nos últimos anos observou-se um crescimento considerável dos evangélicos no Brasil, principalmente dentro dos movimentos pentecostal e neopentecostal, com suas mensagens positivistas e grande ênfase em milagres e esperança para os menos afortunados, o que tem levado a um fluxo grande de pessoas em busca de uma mudança de vida rápida para dentro destas igrejas. A facilidade com que se abre um templo hoje no Brasil, e o contexto social que mais desfavorece a grande maioria da população fomenta o aparecimento, a todo instante, de igrejas para os mais variados públicos. Hoje no Brasil encontram-se igrejas voltadas para surfistas, lutadores, alternativos, hipsters, hippies, homossexuais e todo e qualquer tipo de ideologia de vida, transformando muitas vezes a igreja em um mercado lucrativo e próspero.
          Observa-se também que este fenômeno tem aberto portas para inúmeros problemas acarretados pelos mais diversos fatores, dentre os quais a total falta de preparo de líderes, que movidos por ganância, não medem esforços para aumentar seus faturamentos, lançando mão de pressupostos totalmente antibíblicos, antiéticos e, algumas vezes, criminosos, expondo seus membros ao ridículo e causando danos muitas vezes irreversíveis à fé das pessoas que por eles são lideradas. Vê-se que há um fluxo grande pela porta da frente de tais igrejas, mas esconde-se o igualmente grande fluxo que há pela porta dos fundos. O que se vê é que muitos dos líderes destas igrejas e comunidades tornam-se verdadeiros despostas, opressores em um sistema sem controle.
          O tema será abordado de forma crítica, trazendo uma reflexão sobre as questões relevantes para a busca de uma solução salutar aos problemas enfrentados pela Igreja, que muito tem sofrido com os descuidos daqueles que, se mascarando de cristãos, abandonaram a essência do verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, conforme nos diz a Bíblia:
E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita. (BIBLIA, 2 Pedro 2.1-3)

    O que se pode ver é que o papel de defender os mais fracos tem sido jogado ao relento, demonstrando falta de preocupação por parte da Igreja como um todo com aqueles que se decepcionam com o sistema, muitas vezes culpando estas pessoas por todos os males que as acometem; às vezes as próprias vítimas dos abusos sentem-se culpadas, segundo dados apontados por Marília de Camargo César em seu livro Feridos em nome de Deus. É necessário apontar estas falhas e também solucioná-las, para que a porta do Reino não seja fechada para aquelas pessoas que por ela buscam passar, mas sim abri-las cada vez mais, para que mais pessoas possam ser levadas ao conhecimento do amor de Cristo.
1.      INÍCIO DO MOVIMENTO PENTECOSTAL
2.1 Primórdios
            Historicamente o movimento pentecostal surgiu em meio ao período de segregação racial nos Estados Unidos, após a guerra civil em meados do século XIX. Surgiram algumas igrejas metodistas pregando a plena santificação através da chamada “segunda benção” ou “segunda obra da graça”, distinta da conversão. Tais igrejas receberam o nome de ‘holiness’, que em português significa ‘santidade’; estas igrejas começaram a doutrina do batismo com Espírito Santo e com fogo, considerando este fenômeno como uma terceira experiência na vida cristã.
            Em 1900 um pregador metodista chamado Charles Fox Parham, criou um instituto bíblico na cidade de Topeka, Kansas. Este pastor ensinava que a glossolalia – o falar em novas línguas – era o sinal que acompanhava este batismo, e, apesar deste fenômeno não ser novo, Parham foi o primeiro que o enfatizou como evidência do batismo com Espírito Santo. O movimento criado por Parham recebeu nomes como ‘fé apostólica’, ‘pentecostal’ e ‘chuva tardia’. Dado o crescimento rápido deste trabalho, muitos foram atraídos para este movimento. Contemporâneo a este movimento nos Estados Unidos, houve um movimento semelhante em Londres, que ficou conhecido como ‘o grande avivamento do País de Gales’. Após estes eventos, Parham criou outro instituto bíblico em Huston, Texas. Muitos foram atraídos para lá, incluindo o ex-garçom negro e pregador holiness chamado William J. Seymour.
            Este era um período de segregação racial nos Estados Unidos e Parham por ser racista, discriminava Seymour, impedindo-o de participar diretamente de suas aulas. Seymour só poderia ouvir as aulas em um corredor do lado de fora da sala. Seymour era filho de escravos e de pouca cultura, era cego de um olho e não possuía boa comunicação. Após algum tempo, Seymour foi convidado a pregar em uma igreja batista em Los Angeles, pastoreada por Julia Hutchins, expulsa de sua comunidade por pregar a doutrina holiness. Seymour pregou baseado na passagem de Atos 2.4, apesar de ainda não ter experimentado o fenômeno da glossolalia. Julia não se agradou do sermão de Seymour, mas ele começou a fazer reuniões na casa em que estava hospedado, atraindo vários membros desta igreja; muitos destes membros começaram a experimentar o falar em línguas, primeiro negros, depois brancos, e por último, o próprio Seymour.
            Após um acidente ocorrido nesta casa, Seymour e seus seguidores alugaram um prédio antigo na Rua Azusa, no centro de Los Angeles. As reuniões ali realizadas atraíram a atenção de muitos, inclusive da imprensa. Um repórter do Los Angeles Times escreveu um artigo intitulado “Estranha Babel de línguas”, expressou-se da seguinte forma:
As reuniões se realizam num barraco condenado na Rua Azusa, e os partidários desta estranha doutrina praticam os mais fanáticos ritos, pregam as teorias mais loucas e eles mesmos funcionam num estado de louca excitação em seu zelo peculiar. Gente de color e uns quantos brancos compõem a congregação, e a noite se torna horrorosa no bairro por causa dos uivos dos fiéis, que passam horas se balançando para frente e para trás numa exasperante atitude de oração e súplica. Eles dizem ter o "dom de línguas" e ser capazes de entender este babel. (fonte: Wikipedia)
Este artigo foi publicado no mesmo dia em que um terremoto e um incêndio destruíram a cidade de São Francisco, e funcionou como uma propaganda gratuita para o movimento. As reuniões chamavam atenção por reunir negros e brancos no mesmo ambiente, em um período de intensa segregação racial; outro fato que chamava atenção era a presença de médiuns espíritas tentando realizar sessões durante os cultos. Muitos problemas eclodiram a partir daí como segregação racial, divergências doutrinárias, brigas de egos. Após muitos conflitos, Seymour e outros líderes negros assumiram a liderança da missão excluindo brancos e hispânicos. Após, o movimento entrou em declínio e em 1922 Seymour veio a falecer. A missão fechou as portas e o prédio da Rua Azusa foi demolido.

2.2 Movimento Pentecostal no Brasil
            Segundo Romeiro (1993), o movimento pentecostal no Brasil divide-se em três períodos conhecidos por Primeira, Segunda e Terceira Onda Pentecostal. A Primeira Onda Pentecostal refere-se aos períodos de chegada do movimento no Brasil, em 1910 com a implantação da Congregação Cristã do Brasil e da Assembleia de Deus, movimento este que se opunha ao catolicismo romano e, assim como os movimentos iniciados nos Estados Unidos, davam ênfase ao batismo com Espírito Santo e ao fenômeno da glossolalia. Abrange o período que vai de 1910 a 1950.
            O autor continua relatando que a Segunda Onda Pentecostal surgiu na década de 1950, quando chegaram a São Paulo dois missionários norte-americanos da International Church of The Foursquare Gospel. Na capital paulista, eles criaram a Cruzada Nacional de Evangelização e, centrados na cura divina, iniciaram a evangelização das massas, principalmente pelo rádio, contribuindo bastante para a expansão do pentecostalismo no Brasil. Em seguida, fundaram a Igreja do Evangelho Quadrangular. No seu rastro surgiram o Ministério Cristo Vive, O Brasil para Cristo, Igreja União Evangélica Pentecostal, Igreja Pentecostal Deus é Amor, Casa da Bênção, Igreja Luz do Calvário, Igreja Unida, Igreja de Nova Vida e diversas outras igrejas pentecostais menores como a Igreja Presbiteriana Pentecostal dentre outras.
            A Terceira Onda Pentecostal ficou conhecida como movimento Neopentecostal, surgiu na década de 70 com a fundação, pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, e da Igreja Internacional da Graça de Deus, liderada pelo missionário R. R. Soares. Este movimento enfatiza a assim chamada “‘Teologia’ da prosperidade” ou a “confissão positiva”, cuja mensagem é de que a benção financeira é o desejo de Deus para os cristãos e que a fé, o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material do fiel.

2.     O CENÁRIO ATUAL
            Atualmente vê-se uma onda de crescimento no número dos que se declaram evangélicos no Brasil. Segundo dados do IBGE, entre 2000 e 2010 houve um crescimento de 61,45%, sendo que em 2000 cerca de 22,6 milhões de brasileiros se declaravam evangélicos, o que representa 15,4% da população; em 2010 este número salta para 42,3 milhões, o que representa 22,2% da população. Os estudos do IBGE também constatam que dentro deste espaço amostral, 6,2% não possuem instrução e 42,3% afirmam ter o ensino fundamental incompleto.
            Este crescimento constante do movimento evangélico, também conhecido por “gospel”, tem levado a distorções de todo tipo. Pastores e líderes sem preparo e com um currículo obscuro não medem esforços para alcançar o máximo de pessoas possíveis, lançando mão de mensagens populares cujo intento é apenas agradar sua audiência, destoando do conhecimento teológico e provocando desvios profundos no conhecimento bíblico.
            O pensamento de muitos destes líderes, segundo Souza (2004), é que “Deus é um bom negócio”, afastando-os do servir e transformando-os em curandeiros, chefes, um atleta olímpico espiritual. Igrejas têm sido tratadas como empresas, já que líderes em sua corrida insana por crescimento impõem metas e cobranças absurdas, e liderados utilizam qualquer meio para alcançá-las; o poder corrompe o bom senso de muitos líderes que não aceitam questionamentos. Como diz Eric Hoffer, “nossa sensação de poder é mais vívida quando dobramos o espírito de um homem do que quando conquistamos seu coração.”[1] Conquistar demanda tempo, e o crescimento exigido por estas igrejas demandam agilidade.
            O cenário em que se encontra o movimento evangélico hoje é de total confusão. Até igrejas pentecostais históricas com a Assembleia de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular que, apesar de sempre terem destoado do evangelho em algum momento ao longo de sua história, abriram mão de seus conceitos e valores históricos e aderiram ao movimento da terceira onda pentecostal, adotando desvios teológicos infundamentados como a “teologia” da prosperidade. Hoje se encontram relatos de empresários que fecharam seus negócios e abriram uma igreja, pois viram nestas uma saída mais lucrativa que aquelas, já que igrejas são consideradas entidades isentas ou imunes e ficam desobrigadas a pagar Imposto de Renda sobre as doações recebidas. Tais fatos colaboram para o aparecimento cada vez maior de aproveitadores da fé alheia. Alie-se a isso o fato de grande parte dos evangélicos terem um baixo grau de instrução, cria-se a oportunidade perfeita para que tais aproveitadores da fé encontrem terreno fértil para suas empreitadas.

3.1  Estratégias do Movimento pentecostal
            Dentre as distorções que se vê no movimento pentecostal está o poder delegado ao pastor/líder da igreja. Baseados em passagens como 1º Crônicas 16:21-22, Salmos 105:15 e 1º Samuel 26:9, onde o cerne está na proteção de Deus a seus ungidos, estes líderes se colocam em um patamar acima dos demais, dizendo-se portadores de uma “mensagem divina”, de uma “revelação” a qual não pode ser contestada, utilizando-se de manipulação e cerceamento dos seus liderados. Segundo análise de Paulo Romeiro, “devido muitas destas igrejas terem sido criadas nas regiões Norte e Nordeste, onde o coronelismo era ainda marcante, tem que ver com este “empodeiramento” do pastor evangélico.”[2]
            Observa-se que a falta de instrução de grande parcela da população evangélica e a baixa renda têm sido fomentadores de práticas abusivas por parte dos pastores deste movimento. Segundo o economista Marcelo Nery, da Fundação Getúlio Vargas, a renda familiar per capita dos fiéis das igrejas pentecostais é 30% menor que a dos católicos, sendo que a renda média de uma família católica é de R$2.023, a de uma família pentecostal cai para R$1.496. Este fator é preponderante já que, devido muitas destas famílias não ter acesso a questões básicas como saúde, educação, lazer e etc. elas buscam na religião a esperança que lhes falta na vida secular. Mas também há aqueles cuja formação cultural e renda estão acima da média apresentada e também sofrem abuso por parte de maus líderes.
            Muito do trabalho feito por estes líderes ocorre através da manipulação psicológica e do medo. Maldição é lugar comum nas pregações neopentecostais. A mensagem principal gira em torno das bênçãos financeiras, mas para isso, o fiel precisa “semear” dízimos e ofertas, caso contrário o “devorador” irá alcançar as finanças e demais áreas da vida deste fiel. Prega-se que se este fiel for assíduo em seus dízimos e ofertas ele jamais enfrentará adversidades nesta vida. Este tipo de mensagem teve início na década de 30, com Essek William Kenyon (1867-1948), cuja influência vem de homens como o do hipnotizador e curandeiro Finéias Parkhust Quimby (1806-1866). Um fato sobre E. W. Kenyon, é que ele foi fortemente influenciado pelo movimento da Nova Era; ele ensinava que tudo que a pessoa puder falar ela possuirá, e apesar de ter pregado a cura divina, dizendo que sempre foi vontade de Deus curar, morreu de um câncer maligno em estado de coma.
            Como já foi citada, esta teologia empregada afirma que o crente fiel jamais passará por problemas. Estudos feitos pelo University College London, no Reino Unido, mostram que o excesso de otimismo pode ser desastroso para o indivíduo, já que este perde a noção dos riscos que corre, não fazendo nenhum tipo de planejamento para o futuro nem se preparando caso haja alguma adversidade em sua vida. Não é difícil encontrar relatos de pessoas que, baseadas neste pensamento e em maus conselhos dados por líderes irresponsáveis, perderam a vida, quando se encontraram doentes e seus líderes lhes disseram que não precisavam de médico ou remédios, pois Deus as curaria.
            Analisando o contexto social, o Brasil é um país que possui desigualdades acentuadas, educação pífia, e segundo dados do IBGE de 2005, aproximadamente 75% dos brasileiros são analfabetos funcionais, incluindo-se ai grande parcela de universitários e pessoas com maiores chances a uma educação de qualidade. A falta de informação é o maior obstáculo para se vencer tais abusos dentro do movimento pentecostal, já que este dá mais ênfase a experiências místicas do que ao conhecimento, e mais ênfase na palavra do líder/pastor que na própria Bíblia.

3.      EDUCAÇÃO COMO SOLUÇÃO
A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo escravo.” –ANTUNES (2003)
            Acredito que a educação seja a melhor saída para que o povo não caia nas garras de tais lobos devoradores que se espalham pelo meio do rebanho. Os países com melhores índices de desenvolvimento hoje são os que mais deram atenção à educação de seu povo. É sabido que muitos destes líderes não têm interesse nenhum em que seu rebanho estude, adquira conhecimento e cultura, porém, é necessário que aqueles que têm a possibilidade comecem a implantar uma cultura de educação diferenciada no meio da igreja. Este quadro mudou ao longo dos anos, já que, assim como uma parcela maior da população hoje se declara evangélica, muitos destes também fazem parte daqueles que tem acesso a uma educação melhor, a uma universidade. Mas a educação não deve se restringir apenas ao conhecimento secular.
            O estudo da teologia hoje, mais do que nunca, se faz necessário para combater heresias e distorções que são ensinadas constantemente em nosso meio. Vitor Hugo[3] disse certa vez que quem poupa o lobo sacrifica a ovelha. Esta deve ser uma máxima constante em nosso meio, já que poucos são aqueles que denunciam tais líderes. Pecam pela omissão, em deixar que muitos se percam em meio ao engano e ao erro. Acredito que como Igreja de Jesus, tenho a responsabilidade de anunciar a verdade tal com ela é, e buscar livrar ao máximo àquelas pessoas presas pelo engano.

4.      CONCLUSÃO
            Muito dano tem se causado ao rebanho de Cristo nos dias de hoje devido abusos por parte de líderes e pastores sem o devido preparo para assumir tão grande responsabilidade que é cuidar da Igreja do Senhor. Há feridas que são difíceis de cicatrizar e, mesmo depois que cicatrizam, latejam e deixam marcas profundas. Por causa disso há muitos que desistiram de frequentar igrejas, muitos desistiram de acreditar no cristianismo e no Deus deste sistema. Infelizmente esta é uma causa onde há poucos que advoguem pelos mais fracos, já que se criou um sistema de medo e cerceamento, onde o bom senso e a razão foram banidos como sendo eles o déspota neste sistema de medição de forças.
            Alguns no meio da igreja praticam tanatose, fazem de conta que nada lhes diz respeito, quando a bíblia nos diz “Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas, e os joelhos desconjuntados” (BÍBLIA, Hebreus cap. 12 verso 12). É sempre nossa obrigação advogar a causa em favor dos mais fracos. A ordenança bíblica é que sejamos imitadores de Cristo. Acaso Cristo é injusto? Não estou sendo omisso ao permitir que a injustiça se perpetre diante dos meus olhos? A mesma bíblia nos diz que quem deixa de fazer o bem sabendo que deve praticá-lo, peca.
            A saída para os dias de hoje é aliar a razão à espiritualidade, buscar entender que Deus não faz acepção de pessoas e que, definitivamente, nenhum líder ou pastor está acima de seu rebanho, mas este deve andar em pé de igualdade, já que não passa de um ser humano falho, fraco, incapaz e tão necessitado da graça de Deus quanto qualquer outra pessoa. Se hoje se primasse mais pela Palavra de Deus que pelas experiências místicas e sincretismos religiosos, encontraríamos um ambiente salutar para desenvolvimento espiritual e cognitivo amplos, entendendo que, acima de tudo, devemos servir a Deus com nossa consciência e razão, e não com a emoção. Que Deus permita que sua Igreja abra os olhos enquanto é tempo.

      REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA SAGRADA
BLAZER, Dan. Freud versus Deus. Viçosa, Editora Ultimato, 2002
CAMARGO, Marília. Feridos em nome de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2013
DE YOUNG, Kevin. KLUK, Ted. Eu não quero um pastor bacana. São Paulo, Mundo Cristão, 2008
Desconhecido. (14 de Julho de 2013). Pentecostalismo. Acesso em 07 de Outubro de 2013, disponível em Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pentecostalismo
MARTON, Fábio. Ímpio: o evangelho de um ateu. São Paulo, LeYa Brasil, 2011
NICODEMOS, Augustus. O que estão fazendo com a igreja e a queda do movimento evangélico brasileiro. São Paulo, Mundo Cristão, 2008
NICODEMOS, Augustus. O ateísmo cristão e outras ameaças à Igreja. São Paulo, Mundo Cristão, 2011
ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. São Paulo, Mundo Cristão, 1999
ROMEIRO, Paulo. SuperCrentes. São Paulo, Mundo Cristão, 1993
ZIMBARDO, Philip. O Efeito Lúcifer: como pessoas boas tornam-se más. Rio de Janeiro: Record, 2012



[1] The Passionate State of Mind, citado em: ZIMBARDO, Philip. O Efeito Lúcifer. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 295
[2] Citado em: CÉSAR, Marília de Camargo. Feridos em nome de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2013 (edição digital)
[3] Victor-Marie Hugo (1802-1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Mundo Líquido

Vivemos em uma sociedade de consumo, isto é fato. Uma das críticas do sociólogo e filosofo polonês Zygmunt Bauman à sociedade ocidental atual é o fato do TER suplantar o SER. Trocamos bases sólidas pelo fugidio e efêmero. Nosso status está mais ligado ao que possuímos do que ao nosso caráter e nossa cultura; pouco importa como você consegue o que tem, o importante é ter. Durante 25 anos minha família teve comércio e vendíamos a crédito. A inadimplência era altíssima. Muitas vezes víamos pessoas que, aparentemente possuíam um alto poder aquisitivo, mas que eram incapazes de gerir suas finanças de forma saudável, ou eram mau caráteres o suficiente para não sanar propositalmente suas dívidas. Para se entender o nosso hoje precisamos olhar para a história recente do mundo. O que moldou nossa sociedade nos dias de hoje foram as Revoluções Industrial, Francesa e Americana.


Revolução Industrial


A Revolução Industrial se deu em dois momentos, tendo sua primeira fase em 1760 e a segunda em 1820, e foi a mudança do processo de manufatura para o processo de fabricação utilizando as máquinas. Esta revolução no modo de produzir provocou um grande êxodo do campo para as cidades, onde pessoas procuravam novas oportunidades e novos horizontes. Mas com os novos tempos vieram os problemas, novos problemas. A Sociologia nasceu com o intuito de entender este período, como um ramo da ciência que buscava entender os fatores sociais e a sociedade como um todo. Dentre os problemas ocorridos houve alta exploração da mão de obra, principalmente mulheres e crianças; muitos conflitos sociais relativos à luta de classes como trabalhadores versus burguesia; na Rússia, por exemplo, houve um alto índice de alcoolismo, o que levava a outros problemas mais graves.

Revolução Francesa


Liberté, Égalité, Fraternité. Esta era a máxima da Revolução Francesa (1789-1799). Esta revolução veio sacudir as bases da monarquia absolutista do século XVIII. Este movimento foi fortemente influenciado pelo movimento filosófico conhecido por Iluminismo. Basicamente, a aristocracia liderada pelo Rei Luís XVI falhava miseravelmente em gerir a nação, levando o povo a uma revolta de consequências sem precedentes na história. O país estava afundado em um verdadeiro pandemônio econômico e a sociedade como um todo estava sob constante pressão agravado pelo descaso da alta burguesia. Muito dos ideais da Revolução Francesa perduram até hoje como ideais de democracia. Esta revolução acabou derrubando a monarquia tornando a França um modelo de luta por ideais até hoje, principalmente por aqueles de visão esquerdista.

Revolução Americana


A Revolução Americana se deu quando da independência dos treze primeiros estados americanos. Foi uma grande revolução, pois os Estados Unidos da América foi o primeiro país a ter uma constituição escrita, tendo como máxima “o direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade”. 

Não é do meu interesse dar uma aula de história, mas apenas fazer uma contextualização para entendermos onde quero chegar. Estas revoluções começaram a moldar a humanidade para o que ela viria a ser no século XX e seus reflexos nos dias de hoje. Depois de a história caminhar lentamente através dos anos, um fato veio carimbar definitivamente a nossa sociedade, fato este iniciado no dia 01 de setembro de 1939, quando um doente mental mal cuidado e completamente desestruturado chamado Adolf Hitler articulou a invasão de um pequeno país chamado Polônia. Falar sobre Segunda Guerra Mundial é deveras complexo, pois seus meandros são longos, houve vários teatros de guerra e, ao contrário do que muitos pensam, o Brasil teve uma importância gigantesca (a meu ver) nesta guerra, não apenas pelos mais de 25 mil soldados que foram enviados a Itália combater, mas também por ser um importante ponto estratégico para a guerra. A África era um importante teatro de guerra e o ponto mais próximo da África em todas as Américas é Natal. Os EUA montaram uma base militar nesta cidade e o aeroporto de Natal chegou a ser o mais movimentado do mundo durante a Segunda Guerra chegando a marca de 800 pousos por dia. Houve um grande esforço dos EUA em conseguir a colaboração brasileira, já que o tapado do nosso presidente na época, o “querido” Getúlio Vargas, flertava com o nazismo (o que faz dele um completo idiota na minha modesta opinião), e se a Alemanha não tivesse feito o favor de afundar navios na costa de Fernando de Noronha provavelmente o Brasil teria lutado ao lado dos nazistas. Enfim, a construção da siderúrgica de Volta Redonda foi o preço que os EUA pagaram para a entrada do Brasil a favor dos Aliados, fora as propagandas como levar Carmen Miranda à Hollywood e fazer Pato Donald vir visitar seu amigo (de onde ele saiu mesmo?) Zé Carioca. 

Segundo Max Hasting, em seu livro Inferno: mundo em guerra 1939-1945, a indústria de guerra levou muita prosperidade aos Estados Unidos, país que ainda se recuperava da quebra da bolsa de 1929. Muitas pessoas que não possuíam bens começaram a prosperar financeiramente da noite para o dia. Em 30 de abril de 1945 Hitler faz o favor de se matar dando fim, teoricamente, a Segunda Guerra. A Rússia que havia entrado na guerra junto com a Alemanha acabou terminando a guerra lutando ao lado dos EUA (provando que dois bicudos não se beijam). Após isso, houve a divisão da Alemanha derrotada entre os vencedores e, na década de 60, levantou-se o famoso muro de Berlim. Era o período da Guerra Fria. O ocidente capitalista e o oriente comunista. Mas Lênin não foi forte o suficiente e em 09 de novembro de 1989 o muro foi derrubado como consequência da falência do comunismo. Iniciou-se um novo período na história. Segundo alguns estudiosos, nasceu aí a era pós-moderna. O espírito do capitalismo começou a mostrar suas garras e a esta altura o EUA já eram uma forte sociedade de consumo. Todos conhecem o poder de fogo do consumismo. A moda, a tecnologia, a música, a cultura pop, tudo isto influenciou severamente o nosso lado do globo. Tem um filme bem interessante sobre a transição da Alemanha Oriental de comunista para capitalista, chamado Adeus, Lênin.

Com o tempo o “sonho americano” de ser independente e livre, poder se sustentar e ter o emprego dos sonhos, casa própria, carro do ano começou a viralizar e acabamos nos tornando o que somos hoje. Só no século XX inteiro houve mais destruição do planeta que todos os séculos anteriores juntos. Estamos exaurindo nossos recursos a uma velocidade que o planeta não suporta. A questão do ter se tornou fundamental. Gosto do Bauman, apesar do negativismo em relação ao futuro (apesar por quê? Eu sou negativista!), ele tem uma visão acurada a respeito dos fatos. E contra fatos não há argumentos. Com a palavra, Sr. Bauman



A sociedade perdeu seu chão. A verdade é que não sabemos o que queremos, estamos cada vez mais vazios. Muitos, dentro do contexto brasileiro que é muito místico, e de uma forma danosa até, buscam na religião uma saída para seus dilemas, mas a religião cristã no Brasil, que é a maioria, está profundamente corrompida. O neopentecostalismo está aí para provar isso. As igrejas evangélicas têm sido uma fábrica de pessoas doentes. A ciência também se perdeu. Muitos filósofos no início do século passado achavam que a ciência era uma resposta para todos os problemas da humanidade. A casa caiu quando estourou a Primeira Guerra, e a ideia veio a bancarrota de vez com a Segunda, principalmente depois das descobertas das peraltices dos cientistas de Hitler. Nosso meio ambiente está morrendo, nós estamos caminhando para o apocalipse que nós mesmos provocamos. Se alguém acha que o mundo não vai ter fim assista o vídeo abaixo e repense. Se você acha que o homem vai evoluir para sobreviver sinceramente eu não acho que haverá tempo. Acredito que está mais que na hora de buscarmos alternativas sustentáveis para nos manter ou então não restará nada para manter. O ser humano é um péssimo gerente do seu meio, a situação é desesperadora e muitos fazem de conta que não há nada acontecendo. Existe um vídeo interessante chamado A História das Coisas que apresenta bem os fatos:




Nosso mundo líquido está acabando com as certezas, criando ansiedades e doenças absurdas, vícios sem nexo. E já está na hora de pararmos de pensar e começarmos a agir, antes que seja tarde demais.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Por que existe tudo ao invés do nada?






“O que situa o homem acima das outras criaturas é o fato de ter consciência da sua finitude.” –Jim Holt


Há muito o homem tem questionado os meandros da vida, sua origem, seu destino e o propósito de sua existência neste meio tempo. Mas há uma questão primeva, aquela cujos filósofos tentam desvendar a anos: Por que existe algo ao invés do nada? Filósofos como Sidney Morgenbesser afirmam que o nada não seria suficiente, numa pilhéria que demonstra o quão perdido estamos em encontrar respostas. O fundamental não é a resposta em si, mas o que podemos descobrir enquanto buscamos uma resposta final para aquela que é a maior de todas as perguntas.


Há várias teorias sobre a nossa existência, da criação ao darwinismo passando pela teoria dos multiversos 2.0 (muito explorada no filme Matrix). Às teorias faltam comprovações e certezas, o que nos leva a uma busca incessante. Neste meio termo surgiram mais perguntas: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Num mundo pós-moderno pregar verdades absolutas tornou-se uma armadilha, uma faca de dois gumes. Cada um deve buscar sua resposta, sua verdade, afinal, eu melhor do que ninguém, devo saber qual minha missão na Terra e em que acreditar.


Religiões, filosofias, sabedorias orientais têm sido ferramentas que buscam orientar a humanidade para sobreviver na jornada. Apesar de estarmos buscando respostas, é senso comum que ninguém a encontrou definitivamente. Dentro da fé cristã, crê-se que existe um Deus todo poderoso que em sua infinita sabedoria criou todas as coisa do nada e nos colocou exatamente aqui para adorá-lo e resplandecer sua glória. Mas, e aqueles que não compartilham da fé cristã? E a ciência, o que diz a respeito?


O Darwinismo nos apresenta a evolução a partir de uma explosão cósmica, o Big Bang, onde há 14 bilhões de anos o universo começou a expandir, e de apenas uma bactéria surgiu toda a vida, evoluindo em espécies e mais espécies sobre a terra. Algumas sendo extintas das formas mais bizarras e desconhecidas possíveis, outras nascendo e tomando o lugar daquelas, criando novas e infinitas espécies, muitas ainda desconhecidas pelo homem em nossos dias, esperando pelo momento de vir à luz das descobertas.


A teoria dos multiversos crê que houve um arquiteto para um universo, que evoluiu, criou programas de computadores e simuladores de realidade, criando outros universos paralelos ao original, e que fazemos parte de simulações de computadores, algo bem ilustrado no filme Matrix (sim, aquilo é uma visão filosófica da existência). E cada vez mais o homem tem buscado respostas e mais respostas para sua existência e seu propósito.


A ciência tenta explicar o peso da religião para o homem. Segundo a revista Superinteressante, em um artigo intitulado “Deus é coisa da sua cabeça”:


A ciência não conseguiu comprovar a existência ou inexistência de Deus. Mas uma coisa o conhecimento racional deixa cada dia mais clara: religião faz bem para a saúde. O motivo? Para o médico americano Andrew Newberg, autor do livro Why God Won’t Go Away (“Por que Deus não vai embora”, sem tradução em português), a resposta está na arquitetura neurológica do nosso cérebro. Para ele, o mais desenvolvido órgão humano é especialmente calibrado para a experiência espiritual.[1]


Parece-nos que até mesmo a ciência se rende ao metafísico naquilo que muitas vezes ela falha em compreender. Alguns preferem achar que tudo envolve apenas o homem:


I'm selfish and responsible. I want the credit and I'll take the blame. Earth created man, man created God - (while you indoctrine some into action) I'm not passive enough to allow some invention to take it all. (Eu sou egoísta e responsável. Eu quero o crédito e eu vou levar a culpa. A Terra criou o homem, o homem criou Deus – [enquanto você doutrina alguns em ação] Eu não sou passiva suficiente para permitir tal invenção tenha tudo.)[2]


Antropologicamente se vê a necessidade do homem em atribuir ao divino a responsabilidade por tudo aquilo que ele não entende. Com o surgimento do movimento filosófico conhecido por Iluminismo, no século XVIII, que prezava exclusivamente pela razão, começou a quebra dos mitos. Friedrich Nietzsche em sua célebre frase "Deus está morto" sintetizou o sentimento daquela época. Não que Deus de fato tivesse morrido, mas incapacidade da religião em responder muitas questões da humanidade relegou Deus e os deuses ao segundo plano, agora o homem e sua razão procurariam respostas por sua conta e risco.


Ainda podemos buscar entender qual o nosso propósito dentro da existência e do universo. As disparidades entre os humanos são variantes conforme região. Não conseguimos nos entender, somos etnocêntricos, irresponsáveis com nosso meio ambiente, com nosso próximo, e ainda assim vemos nossas capacidades como superiores a de qualquer outro ser que habita nosso planeta. No ocidente vivemos em uma eterna corrida do ouro moderna, onde o ter suplanta o ser. Problemas psicológicos se tornaram lugar comum. Sentimos a solidão tão latente em nossos dias apesar de estarmos cercados, vivemos em metrópoles cada vez mais cheias e cada vez mais nossa busca por uma resposta parece urgente.


No oriente as religiões ainda têm um peso muito grande. Sociedades onde o estado e a religião andam de mãos dadas como os países islâmicos. Países onde cada um cria seu deus com o intuito de preencher um vazio e um medo crescentes. Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polonês cunhou o termo líquido para descrever nossos dias. Dias em que faltam bases sólidas para firmarmos nossas ideias. Ondas crescentes de violência e incertezas transformaram o mundo em um poço de ambivalência. Uns correm para Deus e outros desistem de crer em qualquer coisa quem lhes façam ter esperanças, pois a esperança torna-se vã em suas filosofias.


Por qual resposta buscamos de fato? Serão elas suficientes ou a humanidade verá seu fim vazia de significado tornando vã toda busca pelo conhecimento já que não teremos conhecido a nós mesmos e ao nosso propósito? Respostas, de fato, nós não temos. Mas a humanidade sempre terá forças para buscá-las, afinal, são os questionamentos que movem o mundo.


[2] Música Predator and Prayer da banda canadense The Agonist