quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Mundo Líquido

Vivemos em uma sociedade de consumo, isto é fato. Uma das críticas do sociólogo e filosofo polonês Zygmunt Bauman à sociedade ocidental atual é o fato do TER suplantar o SER. Trocamos bases sólidas pelo fugidio e efêmero. Nosso status está mais ligado ao que possuímos do que ao nosso caráter e nossa cultura; pouco importa como você consegue o que tem, o importante é ter. Durante 25 anos minha família teve comércio e vendíamos a crédito. A inadimplência era altíssima. Muitas vezes víamos pessoas que, aparentemente possuíam um alto poder aquisitivo, mas que eram incapazes de gerir suas finanças de forma saudável, ou eram mau caráteres o suficiente para não sanar propositalmente suas dívidas. Para se entender o nosso hoje precisamos olhar para a história recente do mundo. O que moldou nossa sociedade nos dias de hoje foram as Revoluções Industrial, Francesa e Americana.


Revolução Industrial


A Revolução Industrial se deu em dois momentos, tendo sua primeira fase em 1760 e a segunda em 1820, e foi a mudança do processo de manufatura para o processo de fabricação utilizando as máquinas. Esta revolução no modo de produzir provocou um grande êxodo do campo para as cidades, onde pessoas procuravam novas oportunidades e novos horizontes. Mas com os novos tempos vieram os problemas, novos problemas. A Sociologia nasceu com o intuito de entender este período, como um ramo da ciência que buscava entender os fatores sociais e a sociedade como um todo. Dentre os problemas ocorridos houve alta exploração da mão de obra, principalmente mulheres e crianças; muitos conflitos sociais relativos à luta de classes como trabalhadores versus burguesia; na Rússia, por exemplo, houve um alto índice de alcoolismo, o que levava a outros problemas mais graves.

Revolução Francesa


Liberté, Égalité, Fraternité. Esta era a máxima da Revolução Francesa (1789-1799). Esta revolução veio sacudir as bases da monarquia absolutista do século XVIII. Este movimento foi fortemente influenciado pelo movimento filosófico conhecido por Iluminismo. Basicamente, a aristocracia liderada pelo Rei Luís XVI falhava miseravelmente em gerir a nação, levando o povo a uma revolta de consequências sem precedentes na história. O país estava afundado em um verdadeiro pandemônio econômico e a sociedade como um todo estava sob constante pressão agravado pelo descaso da alta burguesia. Muito dos ideais da Revolução Francesa perduram até hoje como ideais de democracia. Esta revolução acabou derrubando a monarquia tornando a França um modelo de luta por ideais até hoje, principalmente por aqueles de visão esquerdista.

Revolução Americana


A Revolução Americana se deu quando da independência dos treze primeiros estados americanos. Foi uma grande revolução, pois os Estados Unidos da América foi o primeiro país a ter uma constituição escrita, tendo como máxima “o direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade”. 

Não é do meu interesse dar uma aula de história, mas apenas fazer uma contextualização para entendermos onde quero chegar. Estas revoluções começaram a moldar a humanidade para o que ela viria a ser no século XX e seus reflexos nos dias de hoje. Depois de a história caminhar lentamente através dos anos, um fato veio carimbar definitivamente a nossa sociedade, fato este iniciado no dia 01 de setembro de 1939, quando um doente mental mal cuidado e completamente desestruturado chamado Adolf Hitler articulou a invasão de um pequeno país chamado Polônia. Falar sobre Segunda Guerra Mundial é deveras complexo, pois seus meandros são longos, houve vários teatros de guerra e, ao contrário do que muitos pensam, o Brasil teve uma importância gigantesca (a meu ver) nesta guerra, não apenas pelos mais de 25 mil soldados que foram enviados a Itália combater, mas também por ser um importante ponto estratégico para a guerra. A África era um importante teatro de guerra e o ponto mais próximo da África em todas as Américas é Natal. Os EUA montaram uma base militar nesta cidade e o aeroporto de Natal chegou a ser o mais movimentado do mundo durante a Segunda Guerra chegando a marca de 800 pousos por dia. Houve um grande esforço dos EUA em conseguir a colaboração brasileira, já que o tapado do nosso presidente na época, o “querido” Getúlio Vargas, flertava com o nazismo (o que faz dele um completo idiota na minha modesta opinião), e se a Alemanha não tivesse feito o favor de afundar navios na costa de Fernando de Noronha provavelmente o Brasil teria lutado ao lado dos nazistas. Enfim, a construção da siderúrgica de Volta Redonda foi o preço que os EUA pagaram para a entrada do Brasil a favor dos Aliados, fora as propagandas como levar Carmen Miranda à Hollywood e fazer Pato Donald vir visitar seu amigo (de onde ele saiu mesmo?) Zé Carioca. 

Segundo Max Hasting, em seu livro Inferno: mundo em guerra 1939-1945, a indústria de guerra levou muita prosperidade aos Estados Unidos, país que ainda se recuperava da quebra da bolsa de 1929. Muitas pessoas que não possuíam bens começaram a prosperar financeiramente da noite para o dia. Em 30 de abril de 1945 Hitler faz o favor de se matar dando fim, teoricamente, a Segunda Guerra. A Rússia que havia entrado na guerra junto com a Alemanha acabou terminando a guerra lutando ao lado dos EUA (provando que dois bicudos não se beijam). Após isso, houve a divisão da Alemanha derrotada entre os vencedores e, na década de 60, levantou-se o famoso muro de Berlim. Era o período da Guerra Fria. O ocidente capitalista e o oriente comunista. Mas Lênin não foi forte o suficiente e em 09 de novembro de 1989 o muro foi derrubado como consequência da falência do comunismo. Iniciou-se um novo período na história. Segundo alguns estudiosos, nasceu aí a era pós-moderna. O espírito do capitalismo começou a mostrar suas garras e a esta altura o EUA já eram uma forte sociedade de consumo. Todos conhecem o poder de fogo do consumismo. A moda, a tecnologia, a música, a cultura pop, tudo isto influenciou severamente o nosso lado do globo. Tem um filme bem interessante sobre a transição da Alemanha Oriental de comunista para capitalista, chamado Adeus, Lênin.

Com o tempo o “sonho americano” de ser independente e livre, poder se sustentar e ter o emprego dos sonhos, casa própria, carro do ano começou a viralizar e acabamos nos tornando o que somos hoje. Só no século XX inteiro houve mais destruição do planeta que todos os séculos anteriores juntos. Estamos exaurindo nossos recursos a uma velocidade que o planeta não suporta. A questão do ter se tornou fundamental. Gosto do Bauman, apesar do negativismo em relação ao futuro (apesar por quê? Eu sou negativista!), ele tem uma visão acurada a respeito dos fatos. E contra fatos não há argumentos. Com a palavra, Sr. Bauman



A sociedade perdeu seu chão. A verdade é que não sabemos o que queremos, estamos cada vez mais vazios. Muitos, dentro do contexto brasileiro que é muito místico, e de uma forma danosa até, buscam na religião uma saída para seus dilemas, mas a religião cristã no Brasil, que é a maioria, está profundamente corrompida. O neopentecostalismo está aí para provar isso. As igrejas evangélicas têm sido uma fábrica de pessoas doentes. A ciência também se perdeu. Muitos filósofos no início do século passado achavam que a ciência era uma resposta para todos os problemas da humanidade. A casa caiu quando estourou a Primeira Guerra, e a ideia veio a bancarrota de vez com a Segunda, principalmente depois das descobertas das peraltices dos cientistas de Hitler. Nosso meio ambiente está morrendo, nós estamos caminhando para o apocalipse que nós mesmos provocamos. Se alguém acha que o mundo não vai ter fim assista o vídeo abaixo e repense. Se você acha que o homem vai evoluir para sobreviver sinceramente eu não acho que haverá tempo. Acredito que está mais que na hora de buscarmos alternativas sustentáveis para nos manter ou então não restará nada para manter. O ser humano é um péssimo gerente do seu meio, a situação é desesperadora e muitos fazem de conta que não há nada acontecendo. Existe um vídeo interessante chamado A História das Coisas que apresenta bem os fatos:




Nosso mundo líquido está acabando com as certezas, criando ansiedades e doenças absurdas, vícios sem nexo. E já está na hora de pararmos de pensar e começarmos a agir, antes que seja tarde demais.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Por que existe tudo ao invés do nada?






“O que situa o homem acima das outras criaturas é o fato de ter consciência da sua finitude.” –Jim Holt


Há muito o homem tem questionado os meandros da vida, sua origem, seu destino e o propósito de sua existência neste meio tempo. Mas há uma questão primeva, aquela cujos filósofos tentam desvendar a anos: Por que existe algo ao invés do nada? Filósofos como Sidney Morgenbesser afirmam que o nada não seria suficiente, numa pilhéria que demonstra o quão perdido estamos em encontrar respostas. O fundamental não é a resposta em si, mas o que podemos descobrir enquanto buscamos uma resposta final para aquela que é a maior de todas as perguntas.


Há várias teorias sobre a nossa existência, da criação ao darwinismo passando pela teoria dos multiversos 2.0 (muito explorada no filme Matrix). Às teorias faltam comprovações e certezas, o que nos leva a uma busca incessante. Neste meio termo surgiram mais perguntas: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Num mundo pós-moderno pregar verdades absolutas tornou-se uma armadilha, uma faca de dois gumes. Cada um deve buscar sua resposta, sua verdade, afinal, eu melhor do que ninguém, devo saber qual minha missão na Terra e em que acreditar.


Religiões, filosofias, sabedorias orientais têm sido ferramentas que buscam orientar a humanidade para sobreviver na jornada. Apesar de estarmos buscando respostas, é senso comum que ninguém a encontrou definitivamente. Dentro da fé cristã, crê-se que existe um Deus todo poderoso que em sua infinita sabedoria criou todas as coisa do nada e nos colocou exatamente aqui para adorá-lo e resplandecer sua glória. Mas, e aqueles que não compartilham da fé cristã? E a ciência, o que diz a respeito?


O Darwinismo nos apresenta a evolução a partir de uma explosão cósmica, o Big Bang, onde há 14 bilhões de anos o universo começou a expandir, e de apenas uma bactéria surgiu toda a vida, evoluindo em espécies e mais espécies sobre a terra. Algumas sendo extintas das formas mais bizarras e desconhecidas possíveis, outras nascendo e tomando o lugar daquelas, criando novas e infinitas espécies, muitas ainda desconhecidas pelo homem em nossos dias, esperando pelo momento de vir à luz das descobertas.


A teoria dos multiversos crê que houve um arquiteto para um universo, que evoluiu, criou programas de computadores e simuladores de realidade, criando outros universos paralelos ao original, e que fazemos parte de simulações de computadores, algo bem ilustrado no filme Matrix (sim, aquilo é uma visão filosófica da existência). E cada vez mais o homem tem buscado respostas e mais respostas para sua existência e seu propósito.


A ciência tenta explicar o peso da religião para o homem. Segundo a revista Superinteressante, em um artigo intitulado “Deus é coisa da sua cabeça”:


A ciência não conseguiu comprovar a existência ou inexistência de Deus. Mas uma coisa o conhecimento racional deixa cada dia mais clara: religião faz bem para a saúde. O motivo? Para o médico americano Andrew Newberg, autor do livro Why God Won’t Go Away (“Por que Deus não vai embora”, sem tradução em português), a resposta está na arquitetura neurológica do nosso cérebro. Para ele, o mais desenvolvido órgão humano é especialmente calibrado para a experiência espiritual.[1]


Parece-nos que até mesmo a ciência se rende ao metafísico naquilo que muitas vezes ela falha em compreender. Alguns preferem achar que tudo envolve apenas o homem:


I'm selfish and responsible. I want the credit and I'll take the blame. Earth created man, man created God - (while you indoctrine some into action) I'm not passive enough to allow some invention to take it all. (Eu sou egoísta e responsável. Eu quero o crédito e eu vou levar a culpa. A Terra criou o homem, o homem criou Deus – [enquanto você doutrina alguns em ação] Eu não sou passiva suficiente para permitir tal invenção tenha tudo.)[2]


Antropologicamente se vê a necessidade do homem em atribuir ao divino a responsabilidade por tudo aquilo que ele não entende. Com o surgimento do movimento filosófico conhecido por Iluminismo, no século XVIII, que prezava exclusivamente pela razão, começou a quebra dos mitos. Friedrich Nietzsche em sua célebre frase "Deus está morto" sintetizou o sentimento daquela época. Não que Deus de fato tivesse morrido, mas incapacidade da religião em responder muitas questões da humanidade relegou Deus e os deuses ao segundo plano, agora o homem e sua razão procurariam respostas por sua conta e risco.


Ainda podemos buscar entender qual o nosso propósito dentro da existência e do universo. As disparidades entre os humanos são variantes conforme região. Não conseguimos nos entender, somos etnocêntricos, irresponsáveis com nosso meio ambiente, com nosso próximo, e ainda assim vemos nossas capacidades como superiores a de qualquer outro ser que habita nosso planeta. No ocidente vivemos em uma eterna corrida do ouro moderna, onde o ter suplanta o ser. Problemas psicológicos se tornaram lugar comum. Sentimos a solidão tão latente em nossos dias apesar de estarmos cercados, vivemos em metrópoles cada vez mais cheias e cada vez mais nossa busca por uma resposta parece urgente.


No oriente as religiões ainda têm um peso muito grande. Sociedades onde o estado e a religião andam de mãos dadas como os países islâmicos. Países onde cada um cria seu deus com o intuito de preencher um vazio e um medo crescentes. Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polonês cunhou o termo líquido para descrever nossos dias. Dias em que faltam bases sólidas para firmarmos nossas ideias. Ondas crescentes de violência e incertezas transformaram o mundo em um poço de ambivalência. Uns correm para Deus e outros desistem de crer em qualquer coisa quem lhes façam ter esperanças, pois a esperança torna-se vã em suas filosofias.


Por qual resposta buscamos de fato? Serão elas suficientes ou a humanidade verá seu fim vazia de significado tornando vã toda busca pelo conhecimento já que não teremos conhecido a nós mesmos e ao nosso propósito? Respostas, de fato, nós não temos. Mas a humanidade sempre terá forças para buscá-las, afinal, são os questionamentos que movem o mundo.


[2] Música Predator and Prayer da banda canadense The Agonist