quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A Velha Senhora (ou a faca de dois gumes)


A morte. Personagem tão temida por uns e tão celebrada por outros (não necessariamente os que a encontram). Eu penso todos os dias na morte. Sou alvo de julgamentos ridículos de pessoas que se esquecem de que estão caminhando para ela. Vivem como se tudo durasse pra sempre, mas como dizia o poeta amargurado e negativamente lúcido, A Vida é um momento. Um doce momento para alguns e uma amargo desenrolar para tantos outros. Penso nela como uma faca de dois gumes, pois, para uns ela pode ser o merecido descanso, como filosofou Homer Simpson nesta última temporada da série, onde ele criara um mundo perfeito e eterno e se desiludiu quando percebeu que não receberia o merecido descanso da morte. Para outros pode vir de forma desesperadora, pois não tiveram tempo de realizar tudo que propuseram em seus corações, menos ainda se arrepender e corrigir seus erros levando-os a um terror desconhecido do que poderão encontrar do outro lado. A morte é um sono. O despertar é incerto.
Tenho medo de encontrar a morte. Não temo a morte em si, mas duvido que a forma que ela se apresente seja bela. Para os epicuristas o medo da morte era uma tolice, por assim dizer, o que não deixa de ser lógico, afinal, todos nós estamos fadados a encontrá-la mais cedo ou mais tarde. Como dizia minha avó, "quem de novo não morre, de velho não escapa". As pessoas me criticam por essa visão, tratando-a de negativista (o que eu acho pura burrice). Um cristão pensar assim chega a ser ridículo no mínimo, apesar de aceitável, afinal, os cristãos de hoje nem conhecem a Palavra que eles tanto afirmam crer. Enfim, gosto das palavras de Salomão:

Melhor é a boa fama do que o melhor unguento, e o dia da morte do que o dia do nascimento de alguém. Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. [...] O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria. (Eclesiastes 7.1-2; 4)

É claro que não da para esperar que um cristão envenenado pelo pós-modernismo dos dias atuais pense assim; eu penso. Não que eu seja um bom cristão. Niilismo.
Há tempos não ouço uma história de alguém que tenha morrido tranquilamente. Parece que esta benção foi aniquilada de nossos dias. Meu pai me contava de como meu bisavô morreu: estava deitado, pediu para uma de suas filhas lhe fazer um copo de leite e depois enrolá-lo no lençol. Fim. Dormiu e não acordou mais. Apenas se desligou deste mundo. Meu pai mesmo partiu desta vida em agonia, quase em um paroxismo, algo difícil de lidar, tanto para quem vai quanto para quem fica. Nossos dias em ritmo acelerado nos tomam um tempo precioso em que poderíamos refletir melhor sobre propósitos e necessidades e a hora final sempre nos toma de surpresa. Nunca estamos preparados.
Pensando bem, eu temo sim a morte. Uma tolice, mas uma tolice unânime. Será que chegarei ao fim do dia? Será que verei muitos dos meus amigos e parentes partirem dessa vida deixando um vazio para trás? Talvez seja melhor não pensar e seguir em frente como se nada de ruim fosse acontecer. Mas ser pego de surpresa e não saber como agir pode ser bem pior. Morrer é um fato da vida, nosso maior paradoxo, pois começamos a morrer no momento em que começamos a viver. A Morte é o complemento da Vida. Simples assim. Lembro-me do primeiro velório que fui, quando criança. Claro que não me lembro dos detalhes, mas lembro de ter ficado encantado com o caixão. Não entendia por que alguém dormia numa caixa de madeira enquanto todo mundo chorava. Diziam-me que ele dormia, o que não deixa de ser verdade.
Conforme fui crescendo fui vendo outras pessoas próximas partirem. A morte é inexorável, e justa. Ela chega para todos, ricos ou pobres, negros ou brancos, jovens, velhos e crianças. E essa justiça com que ela age é fantástica. Como disse antes, aos bons é o descanso necessário, aos maus é o castigo merecido. A celebração da morte em algumas culturas chega a causar aversão. Em uma aula de Filosofia da Educação, meu professor passou um vídeo sobre costumes na Papua Nova-Guiné aonde os parentes do falecido não o enterram logo e, conforme o corpo entra em decomposição, os parentes do morto se passam os fluidos que saem do cadáver para assim manter viva a  memória do tal. Ainda há um fato pior, mas não narrarei aqui.
Durante a era vitoriana na Europa, existia um estilo de arte chamada Memento Mori (do latim, "lembra-te que és mortal"), onde era costume tirar fotos dos falecidos junto com os vivos da família. Famílias faziam coleções destas fotos no que se chamava "Livro dos Mortos". Acho interessante. Eu particularmente gosto do bizarro. Viver apenas preso a paradigmas que não aceitam contestação é uma forma de alienação. Não sou chegado a hedonismo, e sim, a realismo. Se fosse pra fugir da realidade seguiria o conselho de Freud e usaria cocaína. Ou coisa mais pesada. Este é um dos motivos por buscar não pensar apenas naquilo que traz satisfação, mas, acredito que pensar obviedades esquecidas é um exercício de racionalidade forçada interessante.
           O medo da morte é o pai de todos os medos. Na verdade, acredito que seja isso que mova a humanidade. Se fôssemos eternos ainda neste plano talvez nada de importante fosse realizado. Fato é que o medo da morte, ou a morte em si, foi a grande propulsora das ações humanas, boas ou más. A morte permeia até mesmo a mais sensata das religiões. Seguimos filosofias em busca de encontrar uma saída para o incerto. Bem verdade que alguns usam a desculpa da morte para mascarar suas loucuras, mas enfim, da loucura ninguém escapa. Como diz o Dr. Dan Blazer, Ph.D., ninguém pode ser considerado normal já que todos possuem algum desnível psicológico, em maior ou menor grau. Só precisamos mesmo enlouquecer pelos motivos certos, afinal, o fim de tudo e inevitável.