sexta-feira, 26 de maio de 2017

Porque abandonei a igreja


Iniciando com um breve histórico, nasci e fui criado no meio evangélico durante as décadas de 80 e 90. Ser evangélico nesse período era ser pária na sociedade; dificilmente um evangélico era visto com respeito e havia uma luta entre os crentes e a grande maioria da sociedade predominantemente católica. Éramos vistos como pessoas estúpidas e sem condições de conseguir bons empregos e boa colocação social. Mas, para mim, esse foi um período feliz, vivíamos na simplicidade de nossas crenças, a convivência (posso estar enganado) era mais simples. Mas as coisas mudaram e para muito, muito pior.
                Quem me conhece sabe que sou crítico ferrenho do sistema pentecostal. Já fiz um artigo (que você pode ler clicando aqui) falando um pouco sobre como o sistema religioso predominante foi instaurado no Brasil, mas neste momento quero falar de algo mais pessoal. Claro que minhas motivações não fogem as críticas já tecidas, mas neste momento refiro-me apenas as amargas e venenosas experiências a que fui submetido ao longo dos 28 miseráveis anos que perdi da minha vida sendo frequentador da Assembleia de Deus. Não citarei nomes por questões éticas, mas um dos personagens é mundialmente infame (não, isto não é uma hipérbole) logo, quem é do meio saberá a quem me refiro.
                Em primeiro lugar o que me fez abandonar a igreja foi a solidão. Em uma comunidade entendo que existem pessoas das mais variadas filosofias de vida, mesmo quando compartilham uma crença, e acredito que o respeito as diferenças é o que nos faz amadurecer. Na Assembleia de Deus que frequentei situada a Rua Fernando Guilhon nº 5090 em Marituba-PA, cep 67200-000, o ambiente não era nada propício a uma criança superprotegida com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade com tendências impulsivas. Claro que este foi um diagnóstico tardio, mas é algo que me acompanha por toda a vida. Sempre fui muito tímido nunca soube muito me relacionar com outras pessoas, e acredite, ser uma criança assim num ambiente hostil aos seus ímpares é destruidor. Não lembro de quase ninguém com quem convivi na minha infância nesse período, poucas vezes fui de manter contatos duradouros (entenda-se duradouro por 3 anos e fim) e, não sei até onde vai a minha culpa e reconheço que tenho, isso cria uma barreira de puro preconceito já que as pessoas não entendem o que se passa com você e nem fazem esforço para tal, mas que seja, cada um com seus problemas, sendo que esta máxima é inadmissível no cristianismo, que prega empatia; você pode me questionar se eu levei a de alguém, sim levei, da forma mais errada possível, mas pelo menos tentei. Já fui chamado de tudo dentro da igreja (menos de santo, é claro). Entenda-se que o conceito de convivência não abrange apenas você falar com as pessoas, mas conhece-las de fato, exercer empatia. Claro que a solidão é uma condição humana e não há nada a ser feito a respeito, e presença física pouco tem a ver com a cura deste mal. Logo, apesar de cercado, sempre me senti só. Conclusão, se for para ser sozinho que seja na minha casa, longe das vistas de gente que vai analisar minha solidão pelo viés da maldade pura e simples.
                Segundo motivo que me levou a abandonar a igreja foi o medo que evoluiu para o nojo. Não sei até onde você conhece a cultura evangélica pentecostal, mas ela basicamente foi fundada na concepção de liderança despotismo puro e simples. Pastores pentecostais são pessoas mesquinhas e infelizes (claro, há exceções) que adoram exercer domínio sobre outras pessoas. O movimento pentecostal foi fundado em Belém do Pará por Gunnar Vingren e Daniel Berg, cuja história o pastor presidente da Prostituta Maior conta pela metade de que eles receberam uma revelação divina para iniciar os trabalhos por estas bandas; ele só esqueceu de contar que a igreja que Gunnar e Daniel frequentavam nos Estados Unidos entrou numa briga de egos tão grande que eles acabaram expulsos de lá. Esse é o mau desta denominação. Por isso se vê tantas Assembleias de Deus espalhadas por aí e uma não tem nada a ver com a outra; mas se a grande Assembleia de Deus da 14 de Março esquina com José Malcher bairro de Nazaré, Belém-PA é a prostituta, logo as demais são as filhas da puta. Enfim. Este início nesta região foi influenciada pelo coronelismo e o grande mal destes pastores é achar que têm domínio sobre a vida das pessoas. O medo é a ferramenta de controle que eles usam. Eu passei anos tendo medo do primeiro homem que me pastoreou, com aquele olhar sério, tinha mais medo dele que de Deus, procurava agradar mais a ele que a Deus. Aí você pode me julgar dizendo que a culpa é minha porque fui religioso e não cristão, blábláblá, mimimi... Esse também é um lado ruim dos pentecostais, falta noção de cultura e construção social. Lembro que quando mais novo eu sentia dor de barriga toda vez que ele se aproximava de mim. Ora, Deus é amor, Jesus disse que seriamos reconhecidos como seguidores dele se nos amássemos uns aos outros e a bíblia diz ainda que no amor não há medo. Nesta matemática filosófica não há amor, logo meu antigo pastor não era muito cristão não. Depois que perdi o medo me mudei para uma igreja pequena na Humaitá. O pastor era um paspalho, a mulher dele encrenqueira e os parentes deles dominavam a igreja, por ele ser meio frouxo, os parentes faziam o que queriam, mas quem ouvia eram as vítimas dos caprichos deles. Daí veio o meu nojo. Vivia debaixo de cobrança, até que um belo dia a mulher do pastor pediu para conversar comigo, quando fui falar com ela fiquei falando só, porque ela se achava o suprassumo da humanidade e eu teria que esperar pela boa vontade dela, sendo que dali não saía nada de bom. No domingo seguinte cheguei ao culto percebi que ninguém falou comigo, muito menos o untado com óleo de peroba do pastor e a mulher dele. Deu 15 minutos do início do culto levantei e fui embora e desde então nunca mais pisei lá. Algum tempo depois o pastor me ligou para saber o que tinha acontecido e me chamar de volta. Como se eu tivesse merda na cabeça de voltar para aquela pocilga. Daí veio meu mais profundo e sincero nojo por esse meio.

                O terceiro motivo são diferenças ideológicas. Eu não sou humanista, não acredito numa religião centrada no dinheiro e não acredito que existam pessoas especiais dotadas de algo a mais que as façam superiores a seja lá quem for. O movimento pentecostal morreu e apareceu uma prostituta velha, aidética e drogada no lugar chamada Teologia da Prosperidade; esse lixo imundo foi criado nos anos 30 por um cidadão chamado Essek William Keynion que dizia que tudo que você verbalizasse se tornaria real, teoria difundida por um hipnotizador chamado Phienas Quimus (acho que a grafia é esta). Detalhe é que Essek morreu na miséria e doente, contrariando tudo que ele pregava. Neopentecostalismo trabalha sobre três pilares: medo, culpa e ganância. O propósito é o mesmo: tirar dinheiro do povo e colocar controle nas mãos dos tiranos que as lideram. O medo vem em forma de ameaças, onde você tem que ofertar para a obra, para Deus não mandar o devorador sobre suas finanças e toda essa baboseira que a gente cansa de ver. A culpa vem quando o pastor diz que as coisas estão dando errado na sua vida porque você está em pecado e precisa então, fazer um $acrifício no altar para ser livre do pecado. A ganância promete mundos e fundos se você $emear na fissura anal do pastor tudo que você puder. Eu acredito na mesma medida de amor, graça, misericórdia, justiça, ira e atuação de Deus. Deus não precisa do meu dinheiro pra nada. Não acredito na necessidade de templos, nem festas, nem dias especiais, nem em pessoas especiais e nada disso. A igreja se tornou um palco de guerra de dominação. Silas Malafaia que o diga. Aparece querendo ser o arauto de bons costumes, adora denunciar comunidade LGBT, políticos corruptos e tudo o mais, ao passo que manda os fiéis se calarem diante das injustiças praticadas dentro das igrejas. Esqueceu de ler 1º Cor 5, onde Paulo exorta a se julgar os de dentro da igreja e deixar os de fora que Deus lida com eles. Infelizmente Silas Malafaia influencia toda uma cultura, vários pastores Brasil afora veem nele um modelo a ser seguido. Se você não dançar conforme a música tocada nas igrejas você ficará esquecido num quanto qualquer. Igreja é comunidade, espera-se o senso de comunhão que dificilmente existirá. Questionar é rebeldia: ou você obedece ao pastor ou estará sob maldição. Você pode falar mal de Deus e o mundo, mas se falar de pastor você vai morrer. É o tipo de coisa que não encaixa na minha cabeça. Eu me sinto deslocado dentro de uma igreja, eu não consigo conviver mais com essas pessoas. Não tenho raiva dos seguidores, para mim eles são 50% vítimas de um sistema falido e 50% culpados por pura preguiça intelectual de questionar a procedência e veracidade do que lhes é entregue. Hoje Deus não passa de um bom negócio para a maioria dos líderes de igrejas neopentecostais. Nietzsche não errou quando afirmou Got ist tot, as pessoas é que não entendem os próprios feitos e cada um cava sua cova achando que vão encontrar ouro no fim. Como eu existem muitos. Sou revoltado? Sim, de certa forma sou, aceito minha alcunha. Talvez essa breve catarse não faça sentido para você afinal, só sabe de uma dor quem sente. Tanto faz. Eu me senti melhor como ser humano depois que abandonei a igreja, vi que existem outros mundos além daquele, aprendi que opiniões divergentes não envenenam nossa alma, a cegueira de achar que só minha verdade é válida sim, e este é um mal que o sistema religioso impõe. Deveras, a verdade me libertou, mas ela é bem diferente do que eu imaginava. Esse abandono foi 100% positivo? Não, não foi. Mas cabe a mim lidar com o que houve de ruim e a mais ninguém afinal, a lição é minha unicamente. Os caminhos da experiência são traçados na solidão. Aceitar é libertar-se da dor. Negar é sofrer.

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