domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tolo Tabu

Foto: Jan H. Andersen (http://www.jhandersen.com)

“Cuidado com a tristeza. Ela é um vício.” –Gustave Flaubert

Eis um sentimento mal compreendido. As pessoas temem a tristeza como o diabo teme a cruz, como se fosse inevitável em nossas vidas. A tristeza masculina então, essa é execrada da sociedade. Hoje nem tanto, mas cresci com o conceito estúpido de que homem não chora (sendo que o choro é uma reação direta à tristeza). E ouvia isso de muitas mulheres. Depois reclamavam da insensibilidade masculina. Enfim. Quero refletir aqui sobre a tristeza como um todo. Apesar de hoje as pessoas temerem demonstrar tristeza, ela é o mal do século. Angústia, desespero, incertezas, temores, síndrome do pânico, estresse, depressão e fobias são sentimentos negativos muito ruins, eu sei porque os sinto constantemente. Mas acredite, eles têm sua razão de ser.
Há poucos meses li um livro chamado O Lado Bom dos Seus Problemas, cujo foco era explorara sentimentos e problemas psicológicos através da história humana. Segundo o autor “A tristeza nos faz cuidar melhor dos outros. E, com todo mundo cuidando melhor de cada um, a chance da gente sobreviver é maior. Foi o que aconteceu ao longo da existência humana. Por isso a tristeza fez parte da nossa evolução”; este trecho do livro segue-se ao relato de uma perda. O autor tratava de um momento de luto, que, acredito eu, é o pior sentimento de tristeza que enfrentamos. Acredito que todos nós já estivemos em contato com a morte, seja de um amigo, de um parente, de alguém que apenas conhecíamos de vista. A morte nos faz pensar, refletir. A tristeza causada por ela nos faz buscar motivações para seguir em frente. Quando se perde alguém tão próximo perde-se o chão e as motivações junto com a pessoa amada. Aí temos apenas duas escolhas: tirar força da fraqueza ou sucumbir. Muitas vezes a opção é clara e não há o que contestar. Seguimos em frente tristes, magoados, feridos, nos arrastando, sufocando enquanto o tempo passa e a dor aumenta e o mundo ao redor parece não se importar. E quer saber? O mundo não se importa mesmo!
Falar sobre essas coisas é uma catarse pra mim. Odeio quando alguém me olha e diz que tenho motivos pra ser feliz porque tenho um carro e uma casa. Até onde sei dinheiro não compra felicidade. Dinheiro é algo tão fugidio que se não soubermos ser senhores dele não teremos futuro nesta vida. Tenho pena de quem é dominado pelo dinheiro. Meu último post, A Velha Senhora (ou a faca de doisgumes), falei sobre a morte e sua justa medida, pois ela não poupa nem ricos nem pobres, nem velhos nem moços, nem brancos nem negros, nem gente tapada nem inteligente. A tristeza, que é sua companheira, também não. Por mais que fujamos, hoje sentimentos como esse são lugar comum na humanidade. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, a depressão, que é caracterizada por uma tristeza profunda, hoje atinge cerca de 7% da população mundial – cerca de 400 milhões de pessoas, sendo considerada a doença mais incapacitante dos dias atuais (fonte: Folhade São Paulo). E esta é só uma das doenças que tem a tristeza como principal caraterística. Acrescente-se a isso distimias, transtorno bipolar, síndrome do pânico, fobias.
Se a tristeza faz parte da nossa rotina por que negamos tanto esse sentimento? Será que é por que não sabemos o que fazer com ele? Ainda sentimos vergonha de demonstrar nosso lado sombrio (todos temos um) por medo de parecer frágeis. Não sejamos tolos, todos somos frágeis. Alguns apenas têm uma armadura ao redor de si. Tenho um amigo, a quem muito estimo, que é o tipo de pessoa que ninguém vê triste. Ri de tudo e de todos, faz graça de tudo nessa vida. Mas algumas vezes o irmão dele me confessou que ele virava noites chorando. Talvez ninguém saiba das lágrimas dele além de Deus e do irmão. Talvez ele compartilhe com um amigo próximo. Talvez ele esteja certo em esconder do mundo seu fardo e suas incertezas, quem sabe? Fato é que muitas pessoas vivem em situação análoga a dele, não as vemos reclamar de nada, o sorriso é uma constante, mas suas noites são negras e amargas e quando essas pessoas olham para a vida não encontram motivação. Algumas não suportam o fardo e adoecem a ponto de botarem uma bala na cabeça.
Eu sou a favor do choro, do expurgo, da catarse. Aprendi o que é catarse nas minhas aulas de psicologia e nas conversas com minha professora (a quem devo muito), significa o “vomitar da alma”, botar pra fora aquilo que faz tanto mal. Silenciar é o pior veneno. E quando enfrentamos situações provocadas por outros, e passamos muito tempo prendendo esses sentimentos eles acabam se tornando em ódio. A sociedade tem criado seus monstros, vendendo uma imagem de propaganda de Coca-Cola, mas a vida não é nada disso. Nosso maior erro é querer demonstrar o que muitas vezes não temos dentro de nós. Infelizmente aprendemos a viver para esfregar falsidades na cara dos outros. Nossas redes sociais são pura máscara. Estou lendo um livro chamado Sociologia da Fotografia e da Imagem, e o autor elenca o fato de a fotografia não ser sincera, mas apenas passa a imagem daquilo que é ideal (ideal pra quem, afinal?). E fizemos dela uma ferramenta tão mentirosa para corroborar com nosso estilo de vida. Tornamo-nos indiferentes à tristeza alheia, e acabamos colhendo para nós mesmo tal indiferença.
Lembro-me quando perdi meu pai. Foi um momento tenso. Uma semana depois as pessoas me tratavam como se nada tivesse acontecido, apesar de toda a tristeza. Não as culpo, lidar com o fardo dos outros é difícil. Mas senti a indiferença. A única coisa que ouvia é “agora tu és o homem da casa, cuida da tua mãe e da tua irmã” como se essa verdade não estivesse nua e crua diante de mim. Era insuportável. Eu cheguei a tratar mal uma pessoa que me disse isso e, confesso que não me arrependo nem um pouco. Eu só sinto um incomodo na forma como a tristeza é tratada nos dias de hoje. Não há um ser humano sequer, seja de que gênero, cor, credo, nacionalidade que seja, que não sinta tristeza. Acredito que já está mais que na hora de procurarmos entender como lidar com ela. Está mais que na hora de entendermos as pessoas que lidam com a tristeza diariamente. Nunca teremos a solução para os sentimentos negativos, e francamente, acho isso alentador, afinal eles são o equilíbrio na balança de toda a loucura que vivemos. São nossas âncoras, não nos deixam ser levados pelas fantasias de louca felicidade que acometem alguns como um vírus. Tristeza pode ser ruim, mas felicidade em excesso é bem pior. Como canta o The Agonist, Deus abençoe o sofrimento.